O furto de baterias e cabos em redes de telecomunicação se repete de São Paulo a Guarapuava. Nesta análise, o articulista Guilherme Baruch sustenta que o caso é tanto de informação interna das empresas quanto de polícia.
Na tarde de 27 de agosto de 2025, policiais militares abordaram, na Vila Matilde, Zona Leste de São Paulo, um homem que empurrava um carrinho de mão com carcaças de baterias. A pista levou a um comércio da região, onde a equipe encontrou cerca de 200 compartimentos com cinco baterias cada, perto de mil unidades furtadas de empresas de telecomunicação. O dono foi preso em flagrante por indícios de receptação. A nota da Polícia Militar lembra que essas baterias abastecem torres de transmissão e sistemas de no-break, e que sua falta pode comprometer a telefonia.
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Três apreensões, um mesmo circuito
Casos assim costumam ser lidos como ocorrência policial isolada. Vistos em conjunto, sugerem outra coisa. Em julho do mesmo ano, a Anatel, com as polícias Militar e Civil, desativou em Florianópolis uma prestadora de internet que atendia cerca de 3 mil clientes. Entre o material apreendido estavam 20 quilômetros de cabos de fibra óptica, e técnicos da Vivo, da Claro e da TIM reconheceram materiais como pertencentes às suas empresas. O ativo furtado não some. Ele muda de mãos e, às vezes, volta a funcionar numa rede paralela.
No Paraná, em junho de 2024, a Polícia Civil apreendeu em Guarapuava 43 baterias de torres de transmissão e cabos de rede. Segundo o delegado responsável, cada bateria valia cerca de R$ 1.200, e o total recuperado foi estimado em R$ 200 mil. O detalhe que mais interessa às empresas é outro: as vítimas apontaram como possíveis autores um ex-funcionário de uma das empresas lesadas e um funcionário da outra. Quando quem furta conhece a rede por dentro, sabe também quais estações têm menos vigilância e em que horários ninguém vai conferir.
O furto de baterias e cabos é um problema de informação interna
Essas três ocorrências apontam para uma conclusão incômoda. O furto de ativos de rede não é só um problema de segurança patrimonial na ponta. É também um problema de informação dentro da empresa. Para entender o que está acontecendo, a operadora precisa cruzar registros que costumam viver em áreas diferentes: o inventário de baterias e cabos por estação, os acessos físicos a cada local, as ordens de manutenção e os prestadores que as executaram, as datas das interrupções de serviço. Quando as baterias desaparecem logo depois de visitas de manutenção em estações diferentes, o padrão só aparece para quem coloca esses dados lado a lado.
Como apurar sem transformar suspeita em condenação
A apuração interna exige o mesmo cuidado de qualquer investigação de conduta. Suspeitar de um prestador ou de um técnico não autoriza tratá-lo como culpado. O caminho é confrontar ordens de serviço, registros de acesso, inventário e versões dos envolvidos antes de atribuir responsabilidades, e deixar claro o que foi comprovado e o que ainda depende de verificação. É isso que dá à empresa base para decidir, com segurança, sobre contratos, desligamentos e comunicação às autoridades.
O destino do material importa tanto quanto a cerca
Há ainda a etapa que muitas vezes fica esquecida: o destino do material. Saber onde as baterias e os cabos reaparecem, em que comércios, em que redes, sob que titulares, é o que permite apoiar a polícia com informação útil e avaliar, com os advogados, medidas de recuperação. O caso de Florianópolis mostra que o reconhecimento técnico do material pela própria operadora pode ser decisivo para caracterizar a receptação.
Nada disso substitui a vigilância nas estações. Mas a vigilância sozinha protege o local, não a cadeia. Enquanto inventário, acesso, manutenção e destino do material forem tratados como assuntos separados, cada ocorrência continuará parecendo a primeira. Quando passam a ser lidos juntos, o furto deixa de ser fatalidade e passa a ser um padrão que se pode interromper.
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