Um drone comercial, adaptado com explosivo e pilotado por vídeo ao vivo, custa menos que um celular intermediário. Na Ucrânia, esse equipamento se tornou a principal causa de mortes e ferimentos de civis perto da linha de frente — e passou a mirar também socorristas, voluntários e comboios humanitários. As lições desse cenário extremo sobre drones de curto alcance interessam diretamente a quem faz gestão de segurança no Brasil.
A reflexão parte de uma reportagem de Megan Gates publicada em agosto de 2026 na Security Technology, da revista Security Management, da ASIS International. Neste artigo, a Folha da Segurança resume os principais pontos e traz uma leitura voltada para a realidade de gestores, analistas e empresas de segurança brasileiras.
Neste artigo
- Veja o vídeo: comboio da ONU atingido por drones em Kherson
- Quando o alvo é quem presta socorro
- Os números de uma ameaça em escalada
- Do improviso no campo de batalha à produção em massa
- Treinamento: a resposta que está funcionando
- Uma ameaça que já não é só da Ucrânia
- O que o gestor de segurança brasileiro deve tirar disso
- Perguntas frequentes sobre drones de curto alcance
Veja o vídeo: comboio da ONU atingido por drones em Kherson
As imagens abaixo, divulgadas pela ONU e distribuídas pela agência Reuters, mostram o momento em que veículos da organização, claramente identificados, são atingidos por drones durante uma missão de ajuda humanitária no sul da Ucrânia.
Quando o alvo é quem presta socorro
Em julho de 2026, após um bombardeio na região de Zaporizhzhia, uma equipe de emergência da Cruz Vermelha Ucraniana chegou à cidade de Vilniansk para atender vítimas. Pouco depois de estacionar a van — branca, com o emblema da organização bem visível —, a equipe recebeu o alerta de aproximação de um drone FPV. Em instantes, o veículo foi atingido e completamente destruído. Ninguém se feriu, mas o recado ficou claro: nem o símbolo humanitário garante proteção.
O episódio não é isolado. Em maio do mesmo ano, um comboio da ONU com caminhonetes identificadas foi perseguido por drones durante o trajeto e novamente ao chegar ao destino. Os funcionários saíram ilesos, mas precisaram ser retirados do local pelas autoridades.
Os números de uma ameaça em escalada
Os dados da Missão de Monitoramento dos Direitos Humanos da ONU ajudam a dimensionar o problema. Somente em junho de 2026:
- 293 civis mortos e 1.990 feridos na Ucrânia — alta de 10% sobre maio e de 37% sobre junho de 2025;
- mísseis e drones de longo alcance responderam por 126 mortes e 907 feridos, concentrados em Kiev e Dnipro;
- drones de curto alcance mataram 89 pessoas e feriram 588 perto da linha de frente — o maior total mensal registrado pela ONU desde 2022.
Relatos colhidos pela ONU descrevem moradores que se sentem “caçados” ao fazer atividades banais, como ir ao mercado, passear com o cachorro ou cuidar do quintal. Uma comissão internacional de inquérito chegou a classificar os ataques sistemáticos com drones de curto alcance contra civis, ambulâncias e bombeiros como crimes contra a humanidade.
Do improviso no campo de batalha à produção em massa
O uso de drones FPV (sigla em inglês para “visão em primeira pessoa”) como arma começou de forma artesanal: forças ucranianas passaram a acoplar munição a drones de corrida e lançá-los contra blindados russos. A conta era simples — um equipamento de menos de US$ 800 podia inutilizar um veículo milionário.
A tática foi rapidamente copiada. Os dois lados passaram a fabricar drones na casa dos milhões e a formar pilotos em escala — e já incorporam recursos de inteligência artificial nas operações com drones. Segundo a organização de monitoramento ACLED, os ataques russos com drones saltaram de cerca de um por semana, em janeiro de 2023, para mais de 40 semanais em setembro daquele ano — atingindo não apenas alvos militares, mas também infraestrutura civil e trabalhadores.
Treinamento: a resposta que está funcionando
Diante da nova ameaça, gestores de segurança de organizações que atuam no país tiveram de adaptar procedimentos. Um dos nomes centrais nesse movimento é Christian Poonwah, diretor da consultoria SAFER ACCESS, sediada em Kiev e especializada em gestão de riscos para o setor humanitário.
Em parceria com Colin O’Brien — à época diretor de segurança do Instituto da Paz dos EUA (USIP) e hoje vice-presidente da Global Guardian —, Poonwah ajudou a montar um procedimento operacional que dividia o território ucraniano em zonas: áreas proibidas, áreas de cautela elevada e áreas relativamente seguras, salvo em caso de alerta antiaéreo. Esse modelo depois serviu de base para protocolos em outros países com ameaça de drones.
Em 2025, após entrevistas com moradores, empresários, gestores de segurança e militares em Kherson — cidade que habitantes passaram a apelidar de “safári humano” —, a SAFER ACCESS criou um curso de seis módulos sobre ataques com drones de curto alcance. O conteúdo aborda:
- os tipos de equipamento usados (FPV, drones que lançam cargas, drones de reconhecimento e drones guiados por fibra óptica);
- como os pilotos costumam atacar pessoas e os principais vetores de aproximação;
- as limitações dos drones, como autonomia de voo e fragilidade de conexão;
- condutas corretas e erros a evitar, a pé ou embarcado em veículo;
- uso de detectores de frequência — dispositivos simples que captam o sinal de controle do drone e dão segundos preciosos para buscar abrigo.
Até meados de 2026, cerca de 2.000 pessoas haviam sido treinadas. Um efeito destacado por Poonwah é o combate ao medo alimentado por redes sociais: os vídeos de ataques bem-sucedidos que circulam no YouTube e no Telegram escondem que, para cada imagem divulgada, dezenas de tentativas fracassam. Entender a tática do atacante, segundo ele, é o que permite evitá-la.
Outro ponto relevante é o dever de cuidado. Levantamentos citados na reportagem mostram que organizações civis na Ucrânia enfrentam dificuldade para reter equipes em áreas de risco, e que lacunas em manutenção de veículos, EPIs, seguros e treinamento atingem principalmente grupos menores e voluntários.
Uma ameaça que já não é só da Ucrânia
De acordo com o Índice Global da Paz 2026, do Institute for Economics and Peace (IEP), Rússia e Ucrânia concentram quatro em cada cinco ataques com drones no mundo desde 2018. Mas o mesmo estudo aponta que esse tipo de ataque cresceu cerca de 11.500% entre 2018 e 2025, com 565 grupos armados diferentes realizando ao menos uma ação do tipo — em países como Colômbia, México, Mianmar, Sudão e Síria.
Pesquisa do centro norte-americano NCITE, publicada em agosto de 2026, indica que cartéis e grupos terroristas veem no drone uma espécie de “força aérea” barata, útil tanto para ataques quanto para vigilância, planejamento e intimidação de populações. No México, cartéis como o Jalisco Nova Geração já empregam drones explosivos e de fibra óptica para controle territorial. O’Brien relata que orienta clientes que operam no país a considerar que podem estar sendo observados do alto e a reduzir a exposição de rotinas e padrões.
O que o gestor de segurança brasileiro deve tirar disso
O Brasil não vive uma guerra, mas convive com organizações criminosas armadas, disputa territorial e uso crescente de drones para fins ilícitos — do arremesso de objetos em unidades prisionais ao monitoramento de ações policiais. Para quem protege plantas industriais, condomínios, centros de distribuição ou eventos, algumas lições se aplicam desde já:

- Inclua drones na matriz de riscos. Avalie a exposição do site a reconhecimento aéreo (mapeamento de rondas, troca de turno, pontos cegos) e não apenas a ataques.
- Trate a vigilância aérea como fase de planejamento criminoso. Drone sobrevoando o perímetro com frequência é indicador de alerta e deve gerar registro de ocorrência.
- Varie rotinas. Padrões previsíveis de rondas, escoltas e movimentação de valores são exatamente o que um observador aéreo procura.
- Treine a equipe. Vigilantes e brigadistas precisam saber reconhecer, reportar e reagir — e entender o que é mito e o que é ameaça real.
- Conheça os limites legais. No Brasil, a neutralização de drones envolve regras da ANAC, do DECEA e da Anatel (veja as novas regras para operação de drones). Detecção pode ser feita pela empresa; interferência ou derrubada, em regra, não. Estruture procedimento de acionamento das autoridades.
- Revise o dever de cuidado. Equipes em áreas de maior risco precisam de protocolo, comunicação, abrigo definido e suporte — inclusive psicológico.
Como resume O’Brien na reportagem, o desafio não é assustar as pessoas, mas mostrar o que a ameaça significa na prática. Para o gestor de segurança, isso começa por enxergar o espaço aéreo como parte do perímetro.
Perguntas frequentes sobre drones de curto alcance
O que é um drone FPV?
FPV significa “first person view” (visão em primeira pessoa). É um drone pilotado por vídeo transmitido ao vivo para óculos ou tela do operador. Na Ucrânia, modelos de corrida que custam menos de US$ 800 passaram a carregar explosivos e se tornaram a principal arma de curto alcance contra veículos e pessoas.
Por que os drones de curto alcance preocupam tanto?
Porque são baratos, fáceis de produzir em massa e precisos. Em junho de 2026, segundo a ONU, eles mataram 89 civis e feriram 588 perto da linha de frente na Ucrânia, o maior total mensal desde 2022, atingindo inclusive equipes humanitárias identificadas.
Empresas podem derrubar ou bloquear drones no Brasil?
Em regra, não. A empresa pode detectar e registrar a presença de drones, mas interferir no sinal ou derrubar o equipamento envolve regras da ANAC, do DECEA e da Anatel e é atribuição de órgãos autorizados. O caminho é ter procedimento para acionar as autoridades.
Como saber se um drone está fazendo reconhecimento do meu site?
Sobrevoos repetidos sobre o perímetro, especialmente em horários de troca de turno, rondas ou movimentação de valores, são indicadores de alerta. Cada ocorrência deve ser registrada com horário, direção e características do equipamento para análise de padrão.
Que treinamento a equipe de segurança precisa ter sobre drones?
Vigilantes e brigadistas devem saber reconhecer os tipos de drone, reportar o avistamento pelo canal correto, conhecer as limitações do equipamento e adotar condutas de abrigo e afastamento, sem pânico e sem tentar neutralizar o drone por conta própria.
Fonte: GATES, Megan. Short Range, High Impact: How Drone Warfare Is Changing Worker Security in Ukraine. Security Technology / Security Management (ASIS International), 6 ago. 2026 — leia a reportagem original (em inglês). Dados: Missão de Monitoramento dos Direitos Humanos da ONU (HRMMU), ACLED, Índice Global da Paz 2026 (IEP) e NCITE. Vídeo: Reuters/ONU, via YouTube.
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